
As transformações profundas ao longo dos séculos, inerentes ao que diz respeito à singularidade humana, são recheadas de explosões revolucionárias, das quais a mais famosa delas, a Francesa, é um exemplo a ser lido para esclarecer a verdade factual da conjuntura antecedente até o momento da erupção, durante o processo convulsivo de um povo e seu iminente fracasso. Negligenciado por muitos filósofos iluministas, romantizado pela sétima arte, quando ao levar multidões para o cinema, ao sabor de batalhas épicas, envolvidas por trilhas sonoras espetaculares, traz amor ao caos e à violência, a esperança que se agarra na haste da lança, atravessando o espaço em slow motion, enchendo os olhos dos telespectadores que vê o inimigo cair, abatido não só pela lança, como também pela esperança dos oprimidos, que compartilha com os telespectadores a tão sonhada vitória contra a opressão de um império. E ali sobre as cinzas da revolução, emociona-se com aqueles olhares virados para o horizonte, o sol tocando-lhes a face, enquanto respiram fundo, num som uníssono aspirando a esperança de um novo mundo e… fim.
Os telespectadores saem das salas encharcados daquela emoção que se propaga até o retorno para casa durante à noite, atravessa o dia, ganha as discussões nas redes sociais e entre os jovens. Tempos depois, pouco a pouco voltam ao dia a dia, em menos de uma semana já esqueceram por completo a emoção proporcionada pelo filme e agora voltam-se à realidade crua, menos emocionante, menos épica, menos extraordinária, sem direção e com um sabor insosso do não saber o que fazer no futuro. No livro “Dialética do Esclarecimento”, os autores de Frankfurt criaram o termo “Cultura de Massas” para explicar o que a indústria do entretenimento faz com a sétima arte, um subproduto para alimentar o seu capitalismo nocivo, ao mesmo tempo que prendem o telespectador à produção, não ao produto. O mesmo trabalho feito pelo aplicativos de vídeos curtos, os usuários sempre à espera de algo novo e ao mesmo tempo extraordinário. Ansiosos e ávidos consumidores compulsivos por produtos que hoje são entregues via streaming, diretamente para a sala, celular, tablete, computadores e afins. A cultura de massa veio explicar que os detentores dessas produções têm o poder de manipular a mente humana. No entanto, os autores frankfurtinanos eram contra a Cultura de Massa, porque entendiam naquele momento que o entretenimento servia para acúmulo de capital e propagação das ideias burguesas. Hoje estariam felizes em saber que a indústria se tornou ideológica, o fato de continuar aumentando o capital, seria um mero detalhe esquecível para qualquer progressista contraditório.

Mas o que o livro “Dialética do Esclarecimento” tem a ver com as revoluções? Tudo. As Revoluções têm em sua base, uma essência primordial na ruptura com a ordem estabelecida, trazendo sofrimento, guerra e caos. Nesse caldeirão efervescente há dor, sangue e ranger de dentes. Com os pilares que mantêm a nação de pé, destruídos, a realidade factual das consequências que acompanham todas as revoluções, chegará em um dado momento para o revolucionário, e ele não saberá mais a diferença entre o bem e o mal. E certamente fará muito mal, acreditando fazer o bem, ou no mínimo o que acha certo fazer no momento, para alcançar um bem futuro. Maximillien de Robespierre foi um produto da revolução, depois de alcançar o poder, em dado momento começou a guilhotinar seus próprios companheiros ideológicos, Stalin enviou os companheiros para as prisões da Sibéria, os famosos gulags, Che Guevara reverenciado hoje por muitos homossexuais, mas que em sua passagem por esta terra, exterminava-os por puro prazer.

O que isso tem a ver com a “Cultura de Massa”? Tudo. Bem como o cinema evoluiu, as revoluções também, as guerras ganharam novos campos de batalha no interior da mente humana. E embora a indústria do entretenimento ainda continue a visar lucros, ela assumiu e se fundiu à revolução ideológica como pilar de suas produções, com o disfarce de promover inclusão e igualdade. E vem fazendo um belo trabalho, diga-se de passagem, pautas que a longo prazo têm o poder de enfraquecer as nações, como estratégia de controle e domínio. Hoje grande parte dos filmes e séries resumem-se às pautas identitárias que fazem das minorias, massas de manobra. Basta fazer uma reflexão mais sucinta do momento atual, como vivia o jovem há 50 anos: estilo, gostos e costumes. E naquela época já estava em curso a revolução sexual, a revolução feminista com a velha premissa de contestar os pilares pétreos sociais, pedindo paz, amor, igualdade e opressão para os ricos capitalistas patriarcados opressores, todo esse caldeirão repetitivo está no livro de Judth Blater em “Problemas de Gênero – Feminismo e subversão da identidade” . E os jovens não entendem a expressão subversão, e por isso são os mais afetados com essa cultura revolucionária de massas, pois a proposta é dar-lhes um sonho, uma esperança de um mundo melhor sob a égide da liberdade incondicional, eles poderão ser tudo que quiserem ser, sem medir as consequências. Essa frase já se tornou até uma marca carimbada em muitas produções da Walt Disney, inclusive está no trailer do Aranhaverso de Maile Morales, lançado em junho de 2023, um filme, pode-se dizer, voltado ao público infantil.
A abertura dos Jogos Olímpicos da França sob a encenação da ceia de Cristo feita por drag queens, é um retrato fiel dessas essências: romper com a imagem do patriarcado, da família tradicional, abalar os alicerces tradicionais em troca de uma suposta liberdade, afrontar a fé e o cristianismo; sobretudo um escárnio e desrespeito à fé e ao cristãos. Uma representação artística de muito mau gosto que remonta toda a essência das revoluções sociais desde a Revolução Francesa e, contraditoriamente, não se restringe só ao desejo de suposta inclusão e suposta igualdade, é a luta contra um inimigo imaginário, o qual eles sentem a necessidade de provocar, afrontar, oprimir e, se possível, impor uma agenda ideológica à força. Geroge Orwell, no livro 1984, deu um nome para essa contradição cognitiva “duplipensar”. Nada mais, nada menos, defender a liberdade de expressão quando convém, enquanto censura o outro lado, fato ocorrido com dois participantes dos jogos olímpicos, a comissão responsável dos jogos proibiu o jovem brasileiro, mais conhecido como Chumbinho, de usar a imagem de Jesus na prancha de surf, e a brasileira, Rayssa Leal, bronze no skate, por exaltar Cristo em libras na frase “Jesus é o caminho, a verdade e a vida” antes da competição. Em suma todos os aspirantes às revoluções carregam essa essência contraditória. Lutam por liberdade e pelo direito de oprimir.
Em tempos de internet e redes sociais, streamings, as guerras revolucionários ocupam mais a mente humana do que o campo de batalha, deixaram o terreno sangrento de guerra para ocupar a estratégia da informação, mais sutis e mais perversos. Essas essências atravessaram séculos, como bem Gramsci sempre desejou explicitamente nos “Cadernos do Cárcere”, são avalanches ideológicas diárias para a massa absorver, sem ao menos ter um filtro de conhecimento de mundo e histórico. Mesmo assim, com todo arsenal midiático de hoje, Gramsci compreendia desde aquela época, que algumas verdades são tão simples, como um cálculo matemático, e absolutas demais para serem vencidas.